domingo, 17 de maio de 2015

ESTE INFERNO DE AMAR - Almeida Garrett

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Este livro é uma relíquia.;) 
Almeida Garrett, in "Folhas Caídas"


Este inferno de amar - como eu amo! - 
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? 
Esta chama que alenta e consome, 
Que é a vida - e que a vida destrói - 
Como é que se veio a atear, 
Quando - ai quando se há-de ela apagar? 

Eu não sei, não me lembra: o passado, 
A outra vida que dantes vivi 
Era um sonho talvez... - foi um sonho - 
Em que paz tão serena a dormi! 
Oh! que doce era aquele sonhar... 
Quem me veio, ai de mim! despertar? 

Só me lembra que um dia formoso 
Eu passei... dava o sol tanta luz! 
E os meus olhos, que vagos giravam, 
Em seus olhos ardentes os pus. 
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei; 
Mas nessa hora a viver comecei... 
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Nota minha: Olá doutora! Hoje é daquelas noites em que eu não paro de rir, outra vez, e já é bem tarde aqui...Isto não muda mesmo, mas pronto, que fazer? Não dá para ter amnésia não é? Há 31 anos estava sentada na mesma sala de aula do que tu quando escreveste estas belíssimas notas no livro,as aulas de Português eram sempre giras, lembras quando saímos todos para irmos fazer campanha eleitoral para o Professor Freitas do Amaral? A professora dispensou-nos a todos, ela também foi para o comício, era para isso que os nossos pais pagavam a escola, ohhh mãe, nem tinhamos idade para votar, mas havia muito giraço na campanha, havia...havia! Era um espetáculo! Para muitos é só um livro, mas para nós são mais do que livros, são uma vida, outra vida...Lembras? CORRE BAIXA!!!. Tu correste comigo que nem uma louca pelo Chiado abaixo, quando eu olhei para cima gritei outra vez, CORRE!!!, por fim paraste e perguntaste, "Porque estamos a correr?", eu disse e tu disseste, "Coitado", coitado uma ova, aquilo era perseguição, muitos anos de perseguição e, pronto!;) OBRIGADA por teres guardado este  livro e me teres oferecido 31 ANOS DEPOIS , eu não tenho palavras para te agradecer. Não é só um livro, são recordações e outras coisas mais que ficam com quem têm de ficar, os protagonistas desta história...Quando leio este livro, eu rio-me mas penso, penso muito e depois fecho o livro ;).Como já te disse o Quico já me tinha dado este livro, mas tu disseste, "Não, eu quero que tu fiques com este, é a nossa história, este livro marcou a nossa vida", este  e tantos outros...OBRIGADA, querida! "Auto da Barca do Inferno" ;).
Sabes, eu imagino as tremuras...A última vez que tremi assim foi ao sair da Benetton, em Cascais, meses depois do desfecho dramático, decisão acertada que tomei... Não te zangues, estou a brincar, mas olha que eu ia desmaiando, fui parar ao Estoril a correr pelo pontão, sem perceber que corri tanto, faltaste tu para correr comigo, não me apanhou, outra vez! Sou boa nisto de correr, devias correr também nas mesmas circunstâncias, aiiii, o que me estou a rir. Fico-me por aqui e deixo-te os poemas de Almeida Garrett. Lindos, não? ;) Diverte-te nas ilhas. Ali não precisas de correr..."Amar acaba mesmo por ser um Inferno", estas tuas interpretações dos poemas eram dramáticas, lollll, mas os dramas só podiam dar nisto mesmo. ;) 
Presente...Passado, só não foi o futuro...;) Bjs querida.
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Aqui vai o meu poema preferido deste livro. ;)

Estes Sítios - Almeida Garrett, in "Folhas Caídas"

Olha bem estes sítios queridos, 
Vê-os bem neste olhar derradeiro... 
Ai! o negro dos montes erguidos, 
Ai! o verde do triste pinheiro! 
Que saudade que deles teremos... 
Que saudade! ai, amor, que saudade! 
Pois não sentes, neste ar que bebemos, 
No acre cheiro da agreste ramagem, 
Estar-se alma a tragar liberdade 
E a crescer de inocência e vigor! 
Oh! aqui, aqui só se engrinalda 
Da pureza da rosa selvagem, 
E contente aqui só vive Amor. 
O ar queimado das salas lhe escalda 
De suas asas o níveo candor, 
E na frente arrugada lhe cresta 
A inocência infantil do pudor. 
E oh! deixar tais delícias como esta! 
E trocar este céu de ventura 
Pelo inferno da escrava cidade! 
Vender alma e razão à impostura, 
Ir saudar a mentira em sua corte, 
Ajoelhar em seu trono à vaidade, 
Ter de rir nas angústias da morte, 
Chamar vida ao terror da verdade... 
Ai! não, não... nossa vida acabou, 
Nossa vida aqui toda ficou 
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro, 
Dize à sombra dos montes erguidos, 
Dize-o ao verde do triste pinheiro, 
Dize-o a todos os sítios queridos 
Desta rude, feroz soledade, 
Paraíso onde livres vivemos, 
Oh! saudades que dele teremos, 
Que saudade! ai, amor, que saudade! 
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