sábado, 15 de agosto de 2015

Mauk Moruk morreu como um herói, é o que me acalma o coração

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Parte da última mensagem que recebi de Mauk Moruk
Zizi Pedruco

A saudade eterniza 
a presença de quem se foi.
Com o tempo esta dor se aquieta. 
Se transforma em silêncio que espera.
Pelos braços da vida um dia reencontrar 
 Padre Fábio de Melo.
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Ah, Sr. Comandante! Faz hoje uma semana que chegou o dia que eu tinha medo, o dia em que me iam dar a notícia da sua morte, o dia em que lhe assassinaram, o dia em que silenciaram a única voz que denunciava e gritava bem alto os crimes que são cometidos pelos governantes timorenses contra como o senhor dizia sempre "o mui querido Povo Maubere".

Chegou o dia...Assassinaram-lhe cobardemente, o senhor já estava ferido e muito fraco, não tinha comido há quatro dias, estava desarmado e quando eles lhe encontraram o senhor levantou-se e eles sem dó nem piedade balearam-lhe tantas vezes que  para mim como ser humano é impossível de compreender tamanha barbaridade. Mas que cobardia!Violaram, mais uma vez, todas as regras de captura nacionais e internacionais. O que lhe fizeram foi crime, foi um assassinato calculado e a sangue-frio, receio que a impunidade seja o castigo dos seus assassinos.

As minhas lágrimas ainda não secaram, lágrimas de dor, revolta e tive ódio dos seus homicidas, um ódio medonho, como nunca senti na minha vida. Mas o senhor ensinou-me que ter ódio é ser pior que eles e por isso lutei contra este ódio que sentia e agora já nem é mais isso, tenho pena deles, desprezo, afinal eles são uns criminosos miseráveis que precisaram de lhe assassinar para continuarem a reinar em paz, eles precisam de paz e estabilidade nacional para continuarem a cometer mais crimes contra o Estado Timorense e contra o seu "mui querido Povo Maubere".

Como é que eu digo adeus a um amigo querido como o senhor Comandante? Meu amigo do coração, um homem que eu admirava, bom, bom mesmo e embora eu tenha idade para ser sua filha o senhor via-me como uma camarada sua, consola-me saber que o senhor gostava de mim, isso eu sei, e eu de si. 

Eu não lhe vou dizer adeus Sr. Comandante, porque eu acredito que as pessoas só morrem se nós nos esquecermos delas e eu nunca me vou esquecer do senhor, nunca mesmo! Eu aqui cheia de lágrimas nos olhos, eu prometo-lhe que vou honrar o seu nome, prometo-lhe, eu prometo que vou continuar a lutar pelo que o senhor tão heroicamente deu a sua vida, eu prometo-lhe Sr. Comandante.

Eu fui uma grande privilegiada, o senhor ofereceu-me a sua amizade e confiava cegamente em mim e cá para nós os dois, o senhor Comandante gostava muito de me dar ordens e de mandar em mim. Eu deixava porque eu compreendi desde muito cedo que o senhor trazia um sofrimento muitoooooo grande no seu coração. Às vezes o senhor falava comigo e de repente começava a falar no que lhe doía e eu deixava-lhe falar sem nunca o interromper, era aqui que eu percebia a sua imensa dor e o seu desespero e tantas vezes desliguei o telefone e eu começava a chorar. Eu faria qualquer coisa para o ver feliz, o senhor sabia disso, por isso era, "Escuta Zizi, agora tu ouve e vais escrever isto" e zás lá vinha insulto..."Tu desculpa lá minha irmã  mas..." e vinha um valente palavrão.

Eu não concordei com muitas coisas que o senhor fez, o senhor era terrível também e disse-lhe. O senhor dava-me um longo sermão, eu compreendi o que me dizia. Eu dizia-lhe, eu não acho isso certo, o senhor ria e no fim eu acabava por rir também e uma vez disse, nós não devíamos estar a rir disto e o senhor disse, "Ri-te minha irmã que estes canalhas criminosos já riram muito deste povo". Sabe, TINHA TODA A RAZÃO! FOI POUCO...

Quando o meu telefone tocava eu via no ecrã o nome Mauk Moruk eu ria-me logo e atendia e eu dizia-lhe, lá vem ele... Eu perguntava-lhe, o quê que o senhor andou a tramar desta vez? O senhor ria-se e depois de perguntar se eu, o meu marido e os meus filhos estávamos bem dizia-me,"Escuta minha irmã, hoje vou-te dar outra entrevista", eu achava-lhe muita piada, tantos jornalistas queriam uma entrevista com Mauk Moruk e Mauk Moruk telefonava para mim para dar a entrevista. A isto eu chamo de privilegio, fui e continuo a ser uma privilegiada por o senhor ter feito parte da minha vida durante muitos anos e me ter ensinado tanta coisa, de ter sido meu amigo e de ter confiado em mim.Muito obrigada, meu querido comandante!

Eu avisei-lhe tantas, tantas vezes, que o iam matar. Eu era uma "criança" perto do senhor e eu nunca lhe quis faltar ao respeito e também não queria que o senhor pensasse que eu era uma traidora, mas eu sinto remorsos, muitos, por não ter gritado consigo e ter insistido mais para o senhor render. Eu pedi algumas vezes, mas o senhor ficava tão ofendido comigo e ficava tão nervoso que eu sentia-me envergonhada, afinal quem era eu para pedir a um Comandante das Falintil para se render? Eu não lutei por Timor-Leste nem perdi quase toda a minha família para esta independência como o senhor.

Com muita calma e medo eu dizia, Sr. Comandante, se calhar não era melhor se render, olhe que eles lhe vão matar, eu não quero que nenhum mal lhe aconteça. O senhor gritava logo, "EU NÃO VOU RENDER A ESTES BANDIDOS, ELES TÊM DE VIR MATAR-ME PARA ME LEVAREM A CABEÇA", e mataram-lhe mesmo meu amigo adorado, mataram-lhe mesmo!

Evidentemente que nos tempos próximos eu nem me atrevia a falar na rendição, da maneira como o senhor se zangava comigo, eu tinha medo que lhe desse um ataque cardíaco...

A mim ninguém me pode acusar de lhe ter instigado a que não rendesse, porque um dos grandes governantes timorenses é minha testemunha de que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para que o senhor negociasse a sua rendição com ele. Ele pediu-me para eu lhe convencer a render e vocês os dois e Deus sabem que eu tentei, mas o senhor mandou cá uns insultos para eu lhe dizer a ele, mas eu não disse, hoje dizia, mas naquela altura não podia pôr mais gasolina no fogo e disse educadamente que o senhor se recusava a negociar com ele. Eu sou muito ingénua e o senhor sabia disso e acho que se ria da minha ingenuidade, eu ainda confio que todo o ser humano até prova em contrário é bom...O senhor não me queria ofender quando eu lhe disse, se calhar ele tem boas intenções e o senhor ria-se da minha "santa" ingenuidade.

Implorei a este governante que não o matassem, expliquei que o senhor sofria muito com os traumas do passado, pedi-lhe para o governo lhe parar de chamar traidor, pedi para que o aceitassem e reconhecessem que também lutou pela sua amada terra. O senhor precisava de carinho e reconhecimento e não de acusações e balas. Eu conheci o melhor lado de Mauk Moruk, o ser humano maravilhoso, o homem corajoso que eu receava e sabia que estava pronto para morrer pela justiça e pela verdade e foi por isso que lhe defendi sempre com unhas e dentes, era o mínimo que podia fazer por si, vou continuar...A minha admiração pelo seu caráter e dignidade foi convertida em lealdade, o senhor merecia isso mesmo da minha parte.

Sr. Comandante, o senhor conquistou completamente o meu coração, eu já era sua amiga antes de saber que o senhor era Mauk Moruk, eu conheci-lhe com outro nome, Maubere, e andávamos nas escritas em blogues e no Facebook, eu era sua fã, gostava muito do que o senhor escrevia, discutíamos às vezes, naquela altura era mais fácil, o senhor zangava-se comigo e eu zangava-me consigo, mas nunca mais tive a coragem de zangar-me consigo depois de saber que o senhor era o Mauk Moruk, porque o senhor, para mim, era maior do que eu, era superior a mim, mas o senhor sempre me tratou de igual para igual. Obrigado meu amigo.

 Ninguém pode dizer que eu me aproximei de Mauk Moruk para tirar alguma vantagem ou fazer política, porque eu não conhecia Mauk Moruk eu era amiga de um homem extraordinário de nome Maubere, que durante anos defendeu diariamente o Povo Maubere, foi este SENHOR quem ganhou a minha amizade e lealdade incondicional. Quando eu soube que o senhor era Mauk Moruk, nada mudou, continuava a ser quem eu conheci, quem eu tanto gostava. Seria hipocrisia se eu mudasse. 

Eu fiz o que eu uma amiga tem a obrigação de fazer por um amigo do coração, defender-lhe e ficar do seu lado. Fiz isso mesmo e orgulho-me muito disso, é a única coisa que me acalma o coração. O senhor é das poucas pessoas do mundo que não pode dizer, "A Zizi fez-me mal" nem o meu querido pai pode dizer isso, infelizmente. Eu fui-lhe leal sempre, mesmo quando não devia ter sido...

Estou a lembrar-me de Boleha, "Tu vais escrever que eu estou em Boleha", e eu disse-lhe, mas o senhor está bem da cabeça? Acha que eu lhe vou trair, acha que eu vou dizer a esses cães criminosos (falávamos assim um com o outro, tenho tantas saudades suas) onde o senhor está? Nem pense nisso. O senhor dizia, " Escuta minha irmã, tu tens de escrever que eu estou em Boleha", eu já desesperada perguntei-lhe aos berros, mas está em Boleha e quer que eu lhe denuncie porque quer render é isso? O senhor riu muito e disse,"Escreve que eu estou em Boleha e eu te garanto que eles não me apanham", eu percebi...O COC bem foi que foi para Boleha à sua procura mas evidentemente que não o encontrou. O senhor era terrível, tenho de lhe dizer.

E quando se punha a insultar os gajos, mas quando eu digo insultar não me refiro ao que eu escrevia, comparando com o senhor me dizia eu CENSURAVA, o que eu  escrevia eram mimos comparando ao que o senhor me dizia , mimos para aqueles cabrões cobardes criminosos, mimos!

"Ó Zizi tu vais escrever isto" uma das vezes foram umas ofensas ao Taur, o senhor chamou-lhe de galinha medricas, dizia que ele agora estava todo armado em herói mas no mato mal ouvia um tiro escondia-se atrás de si, que tinha muito medo, era muito medroso.

 Eu disse-lhe, não vou nada escrever nada isto, depois estes cães criminosos ainda ficam com mais ódio do senhor. "Escuta minha irmã, escreve e não tenhas medo destes criminosos" mas eu disse que o senhor podia zangar-se comigo mas isso eu não ia escrever. O senhor riu-se. Eu protegia-o ao não escrever muita coisa que o senhor me dizia, porque estes cães raivosos são cheios de vaidade deles próprios e se lhes tocasse muito no orgulho podiam-lhe matar, se eu soubesse que o seu fim ia ser assim, que estes cobardes lhe iam matar desta forma tão cruel tinha escrito tudo sobre o palhaço da galinha medrosa do Taur e dos outros! Mas...Nunca pensei que fossem assassinos, que tivessem coragem de matar um deles. Mas são assassinos e cobardolas! 

Eu acreditei sempre que o general Lere não lhe deixasse matar, eu dizia-lhe sempre o general é um homem bom, eu não acredito que ele lhe queira mal, fale com ele. Afinal, o senhor salvou a vida ao general Lere, no mínimo ele tinha de lhe proteger, não o ia deixar matar...Ao principio o senhor ainda dizia talvez, mas no fim o senhor já não confiava nele, dizia que ele trabalhava para o patrão Xanana e os insultos, livra Sr. Comandante. A sua morte era quase inevitável senhor comandante, Xanana queria-lhe morto e não há ninguém que ouse fazer frente a este criminoso, a este assassino, a este homem de tão má índole que destroi Timor-Leste e mata lentamente o seu povo.O senhor contou-me tanta coisa por isso eu suspeito que o senhor não foi o único comandante que ele mandou matar, mas agora minha pergunta é: Mauk Moruk foi o último comandante das Falintil que Xanana mandou matar? Vamos ver, vamos ver...Não admira que os outros comandantes da Falintil lhe beijem os pés, é que nem todos os homens são da sua CORAGEM E DIGNIDADE!   

Tenho muitas saudades suas, habituou-me mal, falava consigo todas as semanas, às vezes duas e três vezes. Agora olho para a minha lista de amigos, o seu nome estava sempre entre os meus dez primeiros contactos, agora está a ir para baixo todos os dias...Só me resta aprender a viver com esta grande dor que tenho dentro do meu coração, vou aprender Sr. Comandante!

Sabe Sr. Comandante, eu tenho muito orgulho do senhor, o senhor morreu como um herói, o senhor morreu e deixou uma lição muito grande para a nova geração, uma lição de coragem, amor e dignidade! O senhor morreu a defender o seu povo adorado, a sua terra, a justiça e a verdade. Ohhh Sr. Comandante, como me encho de orgulho do senhor! O senhor é um exemplo de heroísmo para Timor-Leste mas não só, o senhor é um exemplo para o mundo inteiro. Morreu um mártir, um HERÓI! 

A corja de bandidos se morresse hoje iriam ser recordados como ladrões, criminosos, assaltantes, carrascos do povo, o senhor ganhou, o senhor ganhou. Eles, os cães criminosos, que desgovernam a sua terra adorada não chegam aos seus calcanhares, não servem sequer para lhe limparem os sapatos, nem para serem seus mainatos. São uns bandidos de colarinho branco, bandidos!

Uma vez estávamos a falar e o senhor disse-me, "Minha irmã, eu sou um pobretanas, durmo no chão se for preciso, para mim mandioca chega para eu comer. Eu não ando à procura de poder, nem de dinheiro, eu não preciso, eu quero é justiça para este povo que já sofreu tanto".

NÃO! O senhor não era nenhum pobretanas, não era não. O senhor era um homem rico, possuía o que muitos não têm, o senhor tinha uma grande riqueza, era um homem muito rico! O senhor era dos homens mais ricos que Timor-Leste tinha! 

Sabe porquê que eu digo que o senhor era um homem muito rico? Porque o senhor era honesto, de uma nobreza inigualável, era bom, tinha dignidade, tinha um amor genuíno pelo seu povo e pela sua terra e deu a sua vida em defesa do que acreditava, isso sim, demonstra a riqueza das pessoas... Maior riqueza do que esta não há senhor comandante, não há. Eu sou muitoooo pobre comparando com o senhor, muito pobre!

Os outros têm casas, carros, vestem gravatas mas esses sim são uns pobretanas, falta-lhes a sua dignidade, a sua nobreza e pior, o que têm é TUDO ROUBADO ao povo, enchem-se de luxos com o dinheiro dos cofres do Estado, roubam e roubam e roubam...Eles sim, são uns pobretanas e ladrões! Uma pouca-vergonha, o senhor bem dizia que eram uns bandidos da pior espécie, são mesmo!

Muita gente está a sofrer neste momento com a sua morte, mas são os seus filhos quem sofrem mais. O senhor pedia sempre para a minha família e eu rezarmos pela sua proteção e dos seus homens, eu rezava mas talvez não rezei tantas como devia, porque vos assassinaram barbaramente, sem dó nem piedade. O senhor era de uma religiosidade comovente.

O senhor ensinou-me a acreditar na justiça dos nossos matebians, o senhor disse que o sangue derramado por eles vai castigar os canalhas dos criminosos dos que governam contra o povo. Eu acredito que sim, eu acredito que já estão a ser castigados, mas e estes palhaços criminosos nem se apercebem...As máscaras de heróis deles estão a cair, uma por uma... 

Nunca vi tanta gente revoltada como agora com a sua morte, até pessoas que não o apoiavam estão revoltados da maneira como o assassinaram. O ódio do Banana foi o maior inimigo dele, está totalmente desacreditado, totalmente desmascarado. Esta é a sua vitória Sr. Comandante, ele matou-lhe mas o senhor ganhou, GANHOU! O senhor desmascarou este engodo, esta fraude, este traidor, este assassino que usa a mascara de herói para continuar a mentir e a usar o nome de Timor para beneficio dele e dos traidores que com ele tentam levar esta terra sagrada para um Estado Falhado!  

Eu vou parar de escrever agora Sr. Comandante agradecendo-lhe tudo o que me ensinou, de me ter dado o imenso privilegio de ter sido meu grande amigo até ter fechado os olhos, ter confiado cegamente em mim mas principalmente por  ter engrandecido a minha pessoa com a sua nobreza, dignidade e a sua colossal coragem. MUITO, MUITO, MUITO OBRIGADA, SR. COMANDANTE!

O senhor é o meu herói, incontestavelmente!

Siti tibi terra levis, Sr. Comandante!

Eterna saudade.

Sua irmã Zizi Pedruco.

VIVA MAUK MORUK! VIVA MAUBERE TUBA RAI METIN!!!
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